#futebolrc

    ...
... ... ... ... ...

Notícias

Rádios
Rádios
Rádios
Rádios
» » » » » Máquina do Tempo: 12 anos da morte de Serginho

Um dos capítulos mais tristes da história do futebol brasileiro completa 12 anos nesta quinta-feira. Foi no dia 27 de outubro de 2004 que o zagueiro Serginho, do São Caetano, então com 30 anos, caiu no gramado do Morumbi após sofrer uma parada cardiorrespiratória durante o jogo contra o São Paulo. Ele morreu cerca de uma hora depois, já no Hospital São Luiz.
A tragédia chocou o país. Mas, tanto tempo depois, muitas incertezas, tristeza e mistérios ainda envolvem o caso, que teve seus desdobramentos na Justiça, porém nem tudo foi esclarecido, tampouco esquecido.
- Nós levamos os atletas para avaliação no Incor (Instituto do Coração). No exame do teste ergométrico, o Serginho teve uma arritmia de grau leve, sem significado, e foi dito a ele que era uma alteração típica de coração de atleta. Fizemos outros exames e o Serginho jamais foi proibido de jogar. Por que eu levaria um jogador ser avaliado no Incor para não obedecer a orientação de lá? Categoricamente eu digo: nunca foi cogitado nada para ele parar. Nunca fomos avisados que ele teria de parar e ele jamais teve um problema que o impedisse.
A frase acima é de Paulo Forte, médico do São Caetano. Assim, ele tenta esclarecer duas das maiores dúvidas que envolvem a morte de Serginho: qual era a gravidade da doença do atleta? Ele sabia que corria risco de morrer ao continuar jogando futebol?
Os exames que detectaram a arritmia cardíaca foram feitos em fevereiro de 2004. Ele chegou a ser afastado dos treinos alguns dias para cuidar do problema e, após novas avaliações, foi constatado que tal problema não o impediria de seguir atuando. Essa é a versão do clube e também das pessoas mais próximas ao jogador, como os pais, a viúva e os ex-companheiros.
 - Fomos fazer os exames no início do ano e no resultado do Serginho deu uma arritmia. Porém, em momento algum o São Caetano foi comunicado pelo Incor que ele estava proibido de qualquer tipo de atividade. O Serginho não sabia, a família não sabia, ele não tomava nenhum remédio. Ele não sabia que poderia morrer jogando e nós nunca fomos avisados que ele teria de parar. Até eu fiz exames pessoais com o Edimar Bocchi e ele nunca falou sobre o atleta - disse Nairo Ferreira, presidente do Azulão.
A história, porém, ganhou capítulos mais complicados. Após a tragédia, surgiu um prontuário assinado pelo médico Edimar Alcides Bocchi, então diretor da unidade clínica de insuficiência cardíaca do Incor, que chefiou os exames do elenco, no qual ele reiterava, diversas vezes, o "risco de morte súbita" ao qual o jogador estava sendo submetido. E mais: que ele tinha um problema grave no coração, detectado após vários exames. O documento terminava com ele desejando "sorte" ao atleta, pois seguia jogando e corria "grande risco de morte súbita". Em seu depoimento à polícia, também disse que o São Caetano foi alertado algumas vezes que Serginho poderia falecer se continuasse na profissão.
Nada disso convence Rogério Leão Zagallo, promotor do Ministério Público responsável pelo caso. Ele, que indiciou o presidente e o médico do São Caetano por homicídio doloso, afirma que o clube sabia, sim, que Serginho tinha um grave problema 
- Estávamos assistindo ao jogo aqui no sofá, aí eu vi quando ele caiu e eu comecei a gritar: "O Serginho está morrendo, está morrendo". Meus filhos vieram e me disseram que ele só tinha se machucado, mas depois daquilo eu não vi mais nada. Assim eu passei aquilo e para mim ele estava morrendo mesmo, eu senti isso, que era grave. Ele olhou para cima, olhou para baixo e caiu. Isso é muito triste para uma mãe. Foi muito triste. A única coisa que ele me falou que chamou a atenção foi que ele me ligou e pediu para que eu orasse por ele: "Ora por mim, mãe, que eu não posso ser expulso e nem tomar um cartão nesse jogo com o São Paulo”. Isso nunca sai de dentro de mim. É muito ruim, muito difícil.
Anna Oliveira da Silva, de 77 anos, mãe de Serginho, descreve assim o que passou naquela noite. Ela assistia ao jogo na cidade de Serra, no Espírito Santo, onde vive até hoje. E pra quem viu a cena de perto, dentro do gramado do Morumbi, o sofrimento não foi diferente.
- Ele estava perto de mim, caído, eu corri pensando que o Grafite tinha dado uma cotovelada nele. Mas vi o olhos do Serginho fechados, fui abrir e vi as retinas viradas, ele bufando, respirando muito forte, fiquei muito preocupado e comecei a gritar. Estava todo mundo desesperado, não tinha ninguém na ambulância, demoraram a chegar. O Anderson Lima lembrou na hora do problema do coração dele. Já estavam fazendo massagem cardíaca, o Serginho deu um suspiro, e eu pensei "acho que ele voltou", mas depois apagou de novo, ficou amarelo. Todo mundo achava que tinha falecido já. No vestiário, recebemos a notícia que ele tinha melhorado. Aí eu, Lúcio Flávio e o Euller fomos ao hospital. Na esquina, recebemos a notícia do morte. Foi muito duro, o Serginho era uma pessoa maravilhosa - contou o ex-goleiro Silvio Luiz.
Serginho caiu aos 14 minutos do segundo tempo, dentro da área de defesa do Azulão. Os médicos dos dois times tentaram reanimá-lo com massagem cardíaca e respiração boca a boca. Os jogadores entraram em desespero, ainda mais depois de saberem que a ambulância que ficava ao lado do campo estava trancada. Ele chegou ao automóvel cerca de três minutos depois, no carro-maca, e ali recebeu o primeiro atendimento. Seguiu para o centro médico do Morumbi, onde até foi reanimado e enviado ao Hospital São Luiz, mas morreu às 22h45, após muitas tentativas de mantê-lo vivo.
- Deve ter até grama do Morumbi ainda aí dentro. Lembro que ele estava com a roupa toda rasgada, peguei as chuteiras e coloquei aqui para homenageá-lo - contou Nairo, que em determinado momento a época quase chorou ao falar sobre o ídolo da torcida do Azulão. O dirigente, naquele momento, pegou o par de chuteiras usado por Serginho. Hoje, eles estão expostos em um quadro, dentro da sala de troféus do São Caetano, na sede social do clube, acima de duas fotos do atleta. Em meio às taças e pôsteres da história do clube, ele é o único com uma homenagem exclusiva no local.
A morte de Serginho teve desdobramentos judiciais. O promotor do Ministério Público Rogério Leão Zagallo indiciou o presidente e o médico do São Caetano por homicídio doloso - no caso, dolo eventual, por considerar que eles assumiram o risco de o jogador morrer ao não afastá-lo. Diz o indiciamento:
"A morte foi criminosa, não há dúvida. Eles mataram o jogador. Assumiram o risco. Não tenho dúvida nenhuma que eles mataram o jogador, pensaram na ganância e no clube e esqueceram de um ser humano que precisava de um tratamento. Ele ouviu do Incor que não poderia jogar. Há provas no Incor que ele e o São Caetano foram avisados. Criaram na cabeça dele que ele não corria nenhum risco. Ele tinha um problema seríssimo e a solução foi negligenciada."
Antes de morrer, Serginho estava sendo sondado por times da Europa e do Brasil. Familiares dele confirmam que essas propostas existiam. Para o promotor, o São Caetano se preocupou em lucrar com uma possível transferência e, por isso, não o afastou. A diretoria nega que houvesse oferta pelo zagueiro, que ainda tinha pouco mais de um ano de vínculo e diz que, se fosse vendido, teria de passar por exames na nova equipe, os quais constatariam a suposta doença.
A denúncia foi desqualificada pelo Superior Tribunal Federal para homicídio culposo (quando não há intenção de matar) e Nairo e Paulo Forte foram absolvidos. O caso já foi arquivado e não há mais nenhum tipo de processo rolando. Judicialmente, ninguém pagou pela morte de Serginho.
Já na parte esportiva, o STJD tirou 24 pontos do Azulão no Brasileirão de 2004. Mesmo assim o time se livrou do rebaixamento. O presidente foi suspenso da função por 720 dias, mas conseguiu baixá-la para apenas um ano - impedido de exercer o cargo, ele diz que pagava ingresso e ia aos jogos normalmente. Já Forte recebeu gancho de quatro anos, reduzido para dois na sequência. Hoje ele segue trabalhando no clube e também é médico das categorias de base da seleção brasileira.
A morte de Serginho não apenas chocou o país, como também causou um distanciamento em parte da família. De um lado, morando em São Paulo, a esposa Helaine e o filho Paulo Sérgio, conhecido como Paulão, de 14 anos. Do outro, no Espírito Santo, os pais, Virgílio e Anna, casados há 58 anos e pais de mais 10 filhos. Após o adeus do jogador, as vidas deles seguiram caminhos distintos e cada vez mais distantes. Tanto que os avós só viram o neto mais uma vez. Eles tiveram alguns atritos no passado. Primeiro porque a viúva não quis enterrá-lo em Serra, no Espírito Santo, e o fez em Coronel Fabriciano, em Minas Gerais. Depois, também houve problemas por questões financeiras.
Os pais não receberam qualquer dinheiro após o óbito. Por outro lado, Helaine conseguiu ganhar dois seguros de vida e luta na justiça para obter o valor do terceiro, que alega que a apólice só foi contratada após o problema no coração ter sido descoberto. A causa já está praticamente definida a favor dela, que também fez um acordo com o São Caetano e o clube pagou todos os vencimentos dos 13 meses restantes de contrato que Serginho ainda tinha. A viúva se casou novamente, já se separou, e perdeu boa parte do dinheiro em alguns investimentos feitos em São Caetano. Hoje trabalha em uma empresa de telemarketing. Passou por alguns problemas financeiros, mas esta recuperada. Os pais vivem em uma casa simples, de dois andares, no bairro de Laranjeiras, em Serra, com vários outros membros da família. E com a lembrança do filho ainda bem viva.
Se ficou algo bom da morte de Serginho foi o legado que o caso deixou para a medicina esportiva no Brasil. Após a tragédia, o cuidado com o estado físico dos atletas, os exames de prevenção e as medidas para evitar e controlar esse tipo de problema se tornaram maiores. Além dos exames mais minuciosos e frequentes, também não é permitido começar jogo, em qualquer categoria, sem uma ambulância e um médico à disposição no estádio.

«
Next
Postagem mais recente
»
Previous
Postagem mais antiga

Nenhum comentário:

Leave a Reply