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» » » » » Abre Aspas: Guga e a conquista de Roland Garros em 1997

O "Abre Aspas" desta semana relembra uma entrevista de Guga ao jornal "O Globo". 

"Levantar o cobiçadíssimo troféu de Roland Garros, cuja chave principal começa neste domingo, é uma façanha para poucos. Pois, no dia 8 de junho de 1997, um até então desconhecido catarinense de 20 anos e 66º do mundo se tornou o primeiro brasileiro a alcançar tal feito. Tinha início ali uma era dos sonhos. O país do futebol começava a se render, a torcer e a se emocionar com as muitas conquistas de um tenista. Até maio de 2008, quando encerrou a carreira, Gustavo Kuerten somou 358 vitórias em 553 jogos e faturou 20 títulos. Num feito raríssimo na história do tênis, sua coleção de troféus teve início justamente com o triunfo em Paris há pouco mais de 15 anos, feito este que ele viria a repetir em 2000 e 2001. 
Nessa entrevista exclusiva, o quarto maior colecionador de títulos no saibro sagrado relembra como tudo começou. Desde a primeira edição do torneio, em 1891, apenas o sueco Bjorn Borg, o espanhol Rafael Nadal (ambos com seis títulos) e o francês Henri Cochet (quatro) venceram mais finais que o brasuca. E apenas outros dois também tornaram-se tricampeões: o americano Ivan Lendl e o sueco Mats Wilander. 

Quando você foi a Roland Garros pela primeira vez, como profissional? 
A primeira vez nem entrei no qualifying. Foi em 1995 (era o 296º do ranking) e fiquei a duas desistências do quali. 

No ano seguinte, você furou o quali e perdeu para o sul-africano Wayne Ferreira (então número 11 do mundo), na primeira rodada. O que aquela campanha significou para você? 
Considero que tive uma estreia boa. Passei o quali ganhando um jogo duro, era minha estreia em Grand Slams, consegui superar minha primeira tentativa em um classificatório. Eu estava com 19 anos e já considerava um objetivo alcançado. Foi uma conquista bem emblemática, de grande significado. Tivemos até que pagar o jantar para alguns brasileiros (risos). A minha atuação foi surpreendente, o Ferreira era um dos primeiros, joguei numa quadra que não era das maiores, mas já tinha uma tensão, uma plateia grande. Ali já experimentei sensações que eu repetiria em 97. Tive poucas chances de ganhar o segundo e muitas de vencer o terceiro set. Ganhar um set já seria fantástico. E se ganhasse um, não seria satisfatório, iria buscar vencer o jogo. De alguma maneira despertou que eu poderia ter resultados bons. Ali fui muito além das expectativas: enfrentar de igual para igual um top. Do nada, depois da frustração do ano anterior , consegui uma campanha surpreendente e para depois o absurdo que foi em 97. Analisando friamente uma derrota, pode-se achar ruim, mas, na nossa análise, foi bastante positiva. Foi um ano marcante, como fincar uma bandeira e pertencer ao que tem de mais supremo no esporte. 

Antes de Roland Garros, como foram seus resultados em 97? 
Eu vinha do meu pior momento naquele ano e ainda aconteceu uma fatalidade comigo dias antes de estrear na Copa Davis, contra os Estados Unidos, em Ribeirão Preto, em fevereiro. Fui pegar um prato no micro-ondas e queimei o dedão inteiro. Eu não estava acostumado a jogar com aquelas bolhas, esparadrapo, não consegui jogar legal. Mesmo assim fiz um bom jogo com o (Jim) Courier e outro de duplas. A sensação era de que estava jogando bem no saibro. E contra o Malivai Washington foi um desperdício, eu deveria ter ganho. Depois, fui muito otimista para aquele circuito: ganhei do (Andre) Agassi (em Memphis), ganhei do Ferreira, em Indian Wells, aí fui cheio de esperanças para o circuito europeu. Fiz uma excelente semana, mas perdi para o (Fernando) Clavet (espanhol, em Estoril). Aí perdi três partidas seguidas (as outras duas foram para o espanhol Albert Portas, na estreia em Barcelona, e para o tcheco Slava Dosedel, na primeira rodada em Monte Carlo) e minha confiança foi lá embaixo. Fomos para Hamburgo (então Masters Series) sempre treinando muito bem, mas na hora do jogo as coisas não andavam e acabam gerando um questionamento, já que o funil começava a apertar. Eu estava entre os 60 e 70 do mundo e, para mirar mais pra cima, era algo assustador, gerava uma série de dúvidas. Perdi na estreia na Alemanha e resolvemos mudar o planejamento de última hora, consertar essa campanha na Europa, que tinha começado bem, mas depois, foi muito mal. 

Quando você decidiu voltar ao Brasil para jogar o Challenger de Curitiba, antes de Roland Garros em 97? 
Resolvemos voltar ao Brasil para respirar, respeitar um pouco porque o vento não estava soprando a favor, recarregar as energias. Aí surgiu esse torneio de Curitiba (duas semanas antes de Roland Garros) e resolvemos jogar em cima da hora. Teria até a opção de jogar o Masters Series de Roma, mas abdicamos dessa oportunidade para vir pra cá, para me sentir mais confortável, buscar confiança, ganhar mais jogos. A intuição ali começou a falar bastante alto. Não tinha uma relação com uma grande campanha em Roland Garros, mas tentar chegar jogando melhor, com um ritmo de jogo mais aprimorado. Aí começou a acontecer uma série de coisas necessárias para poder vencer lá. Em Curitiba, entre simples e duplas, foram nove vitórias consecutivas, isso não acontecia comigo há anos. Estava jogando ATP Tour, mal chegava às oitavas e ganhar três ou quatro jogos era bem difícil. 

E como foi chegar a Roland Garros após vencer na capital paranaense? 
Queira ou não queira chegamos lá com um título, entramos num campo totalmente diferenciado que é Roland Garros, mas com essa sensação de que estava bem. Já começava a achar estranho chamar a atenção nos dias de treino. Treinei com Krajicek (Richard, holandês), Ríos (Marcelo, chileno) e o Corretja (Alex, espanhol), que vinha ganhando tudo no saibro. Eu estava com a sensação de que não havia grandes segredos, apesar de ser treino e ter uma diferença enorme para jogo. Mas eu já estava mais acostumado pelo menos com os treinos e o que faltava era a experiência do jogo, conhecer o que viria pela frente, isso tudo era novo para mim. Por um lado, me ajudou, pois se eu já tivesse conhecido, talvez gerasse algumas dúvidas sobre o arsenal que eu tinha, que não era tão completo assim e aí valeu esse lado de inspiração. 

Como foi a estreia, contra o Slava Dosedel (73º do ranking, por 6-0, 7-5 e 6-1)? E depois, diante do Jonas Bjorkman (23º, por 6-4, 6-2, 4-6, 7-5)? 
Contra o Dosedel foi surpreendente, porque eu tinha perdido as duas partidas anteriores para ele. Depois de ganhar o primeiro set pensei: ‘Pô, tem alguma coisa diferente’. O cara olhava para o outro lado e pensava: ‘O que é isso’? Ganhei bem por 3 a 0 e peguei um jogo mais cascudo na segunda rodada, contra o (Jonas) Bjorkman. Estava bem tranquilo, mas compliquei um pouco o jogo, por causa das deficiências que existiam. Eu tinha um monte de buracos, de coisas que nem sabiam que existiam. Ele complicou, veio o quarto set e ganhei. Depois veio uma nova fase. 

E como foi derrotar o Thomas Muster (5º do mundo, por 6-7(3), 6-1, 6-3, 3-6, 6-4)? 
Foi na quadra 1, meu primeiro jogo numa quadra maior, contra um cara que já tinha sido campeão lá, ex-número 1 do mundo. A minha vantagem é de que essa quadra era caracterizada por derrubar favoritos. Teoricamente na quadra 1 é menos impactante. Tudo que tínhamos de vantajoso para levar pra quadra, tínhamos de levar. Já levamos essa (risos). Esse jogo poderia considerar praticamente perdido. O Muster era conhecido pelo preparo físico. Abri 2 sets a 1, depois já não agüentava mais, estava perto e ele me derrubou. Chegou a estar 3 a 0 para ele no quinto. Minha sensação era de que o cara estava voando e eu, acabado. Daí entra um pouco do relaxamento em conjunto com o nível que eu estava jogando, a inspiração que adquiri. De repente, começou, aí veio a energia, a empolgação, o entusiasmo, a torcida. Quando vi, estava sacando para o jogo contra o Muster, já tendo que lidar com um fato novo, que era ganhar de um cara muito bom, que está jogando bem e num torneio em que ninguém quer perder. Ganhar de um cara bom num Grand Slam é bem diferente do que vencer o mesmo cara em qualquer outro campeonato. Foi emblemática aquela vitória porque percebi que era de verdade que poderia enfrentar esses caras, mas não vinha a sensação de que poderia vencê-los, mas pelo menos poderia competir. Poderia me iludir, talvez, ou me convencer de que seria possível. E isso faz uma diferença enorme. Veio a convicção de que iria acontecer. Saquei para o jogo, lidei bem com aquela situação delicada e entrei num outro estágio, que é aprender a vencer e continuar na competição, chegar ao ápice da minha carreira que estava acontecendo, só que ainda estava no meio do torneio. 

E como foi a vitória sobre o ucraniano Andrey Medvedev (20º do ranking, por 5-7, 6-1, 6-2, 1-6, 7-5)? 

Era um cara muito difícil de ganhar dele. Talvez tenha sido a partida mais dura. Foi interrompida no 2 a 2 no quinto set para voltar no dia seguinte, não tem como esquecer esse jogo, ainda mais pra mim, todo entusiasmado. Fiz 4 a 2, ele empatou, no 4 a 4 ele teve 0-40, uma bola dele que pegasse na fita e passasse, ou qualquer deslize, poderia colocar tudo por água abaixo. Mas ali confirmou que os ventos mudaram. Três semanas atrás, em Hamburgo, nada dava certo. Busquei aquele game, acabei ganhando de 7-5 no quinto. 

E como foi pisar pela primeira vez na quadra central contra o russo Yevgeny Kafelnikov (3º do mundo, por 6-2, 5-7, 2-6, 6-0, 6-4), nas quartas de final? 
Foi o jogo que eu mais temi, sem sombras de dúvidas. Era o atual campeão, minha expectativa era bem conservadora. Pensava: ‘vamos lá, vamos enfrentar’, mas ali o buraco parecia ser mais embaixo. O fundamental ali é que iniciei muito bem. Se ele começasse me massacrando, teria me intimidado, com certeza absoluta. Então, a gente se preparou para essas nuances que fazem total diferença. Sabia que se não entrasse absoluto, o cara ia me trucidar. Comecei a demonstrar algumas características que já indicavam que eu poderia me transformar num grande tenista no futuro. Naquelas duas semanas eu estava jogando 150% do meu tênis o tempo inteiro, era muito além do meu padrão, mas demonstrava que tinha subsídios, tempero para chegar. Naquele jogo tomei a virada por 2 a 1, mas o quarto set foi definitivo, senti que ele deu uma caída no ritmo e eu, ao contrário, estava cada vez mais forte, batendo melhor na bola. Fui para quinto certo de que iria ganhar, bem seguro, mas titubeei algumas vezes. Já estava na reta final e foi depois daquele jogo que senti, pela primeira vez, que tinha reais chances de ser campeão. Pensei: ‘Pô, agora posso ser campeão, já não sobrou tanto cara tão temível assim quanto ele’. Pra fechar o jogo foi duro, ele teve um break point no 5 a 4, sorte que salvei com o saque. Acho que se a bola voltasse ali eu estava tão nervoso que seria difícil ganhar o ponto. Esse jogo me ajudou a ter a convicção de que não precisava mais titubear, era só avançar. 

E a semifinal contra o belga Filip Dewulf (122º do mundo, por 6-1, 3-6, 6-1, 7-6(4)) 
Por incrível que pareça, me deparei com o primeiro jogo em que eu era favorito. Também me dei bem com isso, não fiz uma grande partida comparada com as outras em Roland Garros naquele ano, mas muito melhor do que vinha jogando semanas atrás. Controlei bem, perdi um set mais por falhas minhas. Aliás, neste torneio, cometi diversas falhas quando eu podia e que eram bem naturais e fui preciso, eficaz na hora certa, o que não acontecia no meu jogo com tanta frequência. 

Depois dessas seis vitórias, como você encarou a final contra Sergi Bruguera (19º do ranking, por 6-3, 6-4, 6-2)? 
Fui com uma esperança enorme. A campanha me deu muita força pra acreditar. Entrei convicto, no segundo set teve um momento que ficou um pouco mais aberto, mas na minha cabeça o controle era absoluto e acabou confirmando isso. Minha atuação foi impecável. Para as minhas condições, foi a performance maior de todas que eu fiz. 

Como o momento de fechar a final contra o Sergi Bruguera? 
Esse momento do fim pra mim já estava acontecendo durante os últimos 15, 20 minutos, quando estava 3 a 1, 4 a 1 no terceiro set. Já vi que não iria perder. A lembrança que tenho do momento que termina é mais de agradecimento porque realmente aconteceu, de abraçar, principalmente, minha família. O entusiasmo todo veio me acompanhando nos últimos minutos, dava pra perceber que eu estava feliz, satisfeito, certo de que não iria ter mistério. O título ali se resume à felicidade da conquista, não tinha ideia da idolatria que se transformou, o potencial de expansão que isso representou, até porque eu não conhecia. Foi como viver um sonho. 

O que representou aquele primeiro troféu em Roland Garros? 
Foi a minha maior conquista, uma das maiores na história do tênis. Tem muita coisa que não condiz com o que aconteceu, uma série de obstáculos que, em teoria, eu não era capaz de superar. Minha análise vai se distanciando e vai se aprofundando. Em 2000, 2001 percebo o quanto é difícil ganhar um Grand Slam, sendo um dos favoritos, com as condições mais favoráveis, jogando com todo um know-how, um arsenal de ferramentas. Ali eu cheguei fazendo coisas que nunca tinha feito, tirando coelho da cartola. Esse fato é bastante admirável. Nenhuma outra semifinal eu tinha jogado antes. Grand Slam mesmo eu tinha ganho uma. Tudo ali era no tato, no instinto. Descobri as coisas com essa espontaneidade, que depois virou minha característica. Deu pra ver que eu tinha uma aptidão forte, caso contrário não teria acontecido. 

E como foi voltar ao Brasil após aquele título?
A gente acabou optando por voltar mais tarde ao Brasil. Bologna e depois jogar o circuito na grama. Foi a melhor decisão que tomei na minha carreira. O título em Roland Garros foi um fato absurdo, não estava no prognóstico da minha evolução. O Larri foi muito importante nesse momento para nos fechar para a nossa realidade, que se transformou totalmente depois de vencer em Roland Garros. O Brasil todo parou, o Guga passou a ser outra pessoa para milhões de pessoas. Nem a gente sabia o que representava a minha carreira naquela situação. Foi bom porque continuei, joguei mais uma final, fui campeão de duplas com o Fininho (Fernando Meligeni), na semana seguinte, tomamos um bom de água fria e vimos que o circuito era aquilo ali. E o Guga era um jogador em desenvolvimento, não era como em 99, 2000 ou 2001, que estava preparado para todo torneio. Da mesma forma, quando voltei após Wimbledon foi avassalador, impossível ter essa percepção de lá. Por mais que minha mãe trouxess um pouco de informação, a gente conversasse, pensasse um pouco a respeito. Foi incrível o  contato físico de chegar no aeroporto e ter milhares de pessoas, ganhar a chave da cidade, me colocaram no carro dos bombeiros. A gente sempre teve muita satisfação com tudo isso. Sempre conseguimos converter isso para o lado positivo. É muito gostoso, o carinho das pessoas é sensacional. Mas é preciso controlar também para não virar um entusiasmo exagerado, para não perder o controle desse desenvolvimento. Até porque foi muito precoce para acontecer comigo. Em 99 bati na trave, mas era para ter ganho Roland Garros, seria mais natural. O Djokovic, por exemplo, é número 1 do mundo e tem todo controle sobre a carreira dele. E, naquela época, tinha torneio que nunca tinha jogado. Nem semifinal eu tinha jogado antes. Tudo era misterioso pra mim e essa cautela foi bacana. Essa foi a grande mudança da minha vida, a partir daí surgiu o contato com as pessoas, o ídolo, o ícone. Houve um período de adaptação, de amadurecimento, comecei a desenvolver essa relação que até hoje é bonita, de vínculo com as pessoas. E eu fui percebendo que precisava também dessa troca de energias, de relação constante, por isso foi uma coisa bem aberta, bem natural, que acabou me ajudando tanto.

Dá-lhe, Guga!"

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