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» » » Almanaque do JEC: Guilherme Marques

No dia 22 de novembro, às 9h55, o repórter Guilherme Marques mandou uma mensagem para sua chefia na TV Globo. Empolgado com a possibilidade de um time do interior do Brasil fazer história no continente, ele se candidatava a cobrir a jornada da Chapecoense em Medellín. De quebra, seria uma forma de amenizar a frustração que havia sido seu trabalho anterior na Colômbia. Em setembro, Marques embarcou para o país com a missão de fazer a cobertura do Mundial de Futsal. Para surpresa geral, a seleção brasileira foi eliminada pelo Irã nas oitavas de final e o repórter retornou apenas três dias após ter desembarcado por lá. Designado para fazer o jogo histórico da Chape, ele imaginava melhor sorte dessa vez, mas, desgraçadamente, aconteceu o pior. Marques foi um dos 20 jornalistas que morreram na queda do avião que transportava a delegação do time na madrugada de terça-feira (29). Entre as vítimas estão também profissionais da TV Globo, do grupo RBS, do site Globoesporte.com, do canal Fox Sports e radialistas de Chapecó. O único sobrevivente do grupo foi Rafael Henzel, da Rádio Oeste Capital.
As trajetórias de sucesso da Chape e do repórter Guilherme Marques correm em paralelo. O time catarinense saiu da quarta divisão do Campeonato Brasileiro de 2009 para a decisão de um torneio continental sete anos depois, resultado de uma gestão austera e competente. Marques, por sua vez, teve a mesma ascensão acentuada nesse período. Antes de se formar em comunicação social pela PUC-Rio, começou a estagiar nos sites Globoesporte.com e Carnavalesco. Assim, conseguiu converter em trabalho duas das maiores paixões de bom carioca que era: o futebol e o Carnaval. Fanático pelo Salgueiro, ele ficou particularmente sensibilizado ao cobrir o desfile de 2009, que valeu o título à escola de samba. Sabia de cor sambas-enredo de tempos atrás e guardava na memória detalhes dos desfiles. Na vida de arquibancada, adotou o Botafogo, cuja bandeira enfeita a parede do quarto do apartamento onde morava com os pais e o irmão no Jardim Botânico. Marques era um fervoroso – e otimista – torcedor alvinegro, paixão que sabia deixar hibernada quando o dever do ofício se impunha.
Desde pequeno ele falava em trabalhar na TV, sonho que começou a se concretizar quando foi contratado pela TV Brasil, em 2010. Na emissora, revelou tino para o negócio ao participar de reportagens que exigiam faro para o diferente e sangue-frio. Uma das mais marcantes foi a cobertura das enchentes na Região Serrana em 2012, que deixou mais de 900 mortos. Marques demonstrou segurança ao empunhar o microfone, que contrastava com seu aspecto juvenil, alvo constante das brincadeiras dos colegas. Em 2013, quis dar um passo maior na carreira. Cavou daqui e dali até que conseguiu fazer um teste para a TV Globo, conquistando  todos de imediato. “A câmera gostava dele”, resume o jornalista Gustavo Maria, chefe de reportagem da editoria de Esportes da emissora e um dos responsáveis pela contratação.
Marques cumpriu o percurso-padrão dos repórteres esportivos iniciantes. Acompanhou muito treino das equipes cariocas para o noticioso do dia a dia. No ano passado, fez sua primeira viagem internacional a trabalho, para relatar uma etapa do Mundial de Surfe. Seu caminho já estava pavimentado, mas um marco divisor na carreira de vídeo foi a cobertura do vôlei de praia na Olimpíada. A viagem para Medellín era a coroação de uma temporada bem-sucedida. Para tornar o projeto ainda mais promissor, ele seria acompanhado pelo repórter Guilherme van der Laars e pelo cinegrafista Ari Junior, ambos com larga experiência na profissão. Ari, inclusive, já havia encarado diversas aventuras em seu trabalho no programa Planeta extremo. Laars e Ari também morreram no acidente.
Além do entusiasmo pelo samba e pelo futebol, Marques tinha obsessão pela Segunda Guerra Mundial. Devorava livros, reportagens e filmes sobre o assunto. Toda vez que viajava para a Europa, bolava um roteiro que contemplasse lugares e fatos marcantes do conflito. Em outubro, ele embarcou de férias com um amigo para circular durante 18 dias pelo continente. Entre outros pontos históricos, visitaram o Castelo de Colditz, na Saxônia, que os nazistas haviam transformado em prisão de segurança máxima durante a guerra, e o Fort Schoenenbourg, que fez parte do cinturão de defesa da França. Sobre este último, fez um comentário numa rede social: “Tava no Top 10 dos meus objetivos quando o assunto é o que mais me fascina, a Segunda Guerra. A Linha Maginot é um troço impressionante. Vale o pulo na minúscula Hunspach, na França, e voltar pra Alemanha. Espetacular”. A definição é do jornalista João Senise, colega de Marques desde a infância na Escola Parque. “Ele gostava de História e de contar histórias.”
Desta vez, como a viagem para a Colômbia estava muito em cima, Marques optou por adiar a comemoração de seus 28 anos, completados na sexta-feira, dia 25. Em homenagem a ele e a seu colega Laars, também torcedor alvinegro, o Botafogo anunciou que vai batizar duas cabines do Engenhão com o nome deles. O Fluminense também divulgou que a sala de imprensa de seu novo Centro de Treinamento se chamará Paulo Julio Clement, num tributo ao jornalista da Fox Sports morto no desastre aéreo. Por sua vez, o Flamengo repete o gesto no CT Ninho do Urubu, cuja nova sala de imprensa ganhará o nome do jornalista rubro-negro Victorino Chermont. Um merecido tributo às vítimas da tragédia que fizeram do jornalismo um exercício de prazer e sacerdócio.

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