#futebolrc

    ...
... ... ... ... ...

Notícias

Rádios
Rádios
Rádios
Rádios
» » » » » O Abre Aspas homenageia Caio Júnior

"Bastaram algumas semanas no país para Caio Júnior se lembrar de como é difícil ser treinador no futebol brasileiro. Após dois anos e meio de sucesso no exterior, retornou com quatro títulos na bagagem e a missão de reinventar um Botafogo ainda apegado ao estilo Joel Santana de ser. O primeiro mês não foi nada fácil. Eliminações na Copa do Brasil e no estadual, batalha campal na Ressacada e revolta da torcida, que culminou com cobranças no aeroporto e em General Severiano: “Ser treinador no Brasil é muito mais difícil”, decreta Caio.
Apesar do início conturbado, o técnico acredita que o preço por ter iniciado um trabalho no meio da temporada já foi pago. Agora, sonha com reforços, prevê um Botafogo forte no Campeonato Brasileiro e traça sua meta: “Seria um sonho levar o clube à Libertadores”. Para o objetivo se tornar realidade, não se cansa de pregar união. E com razão. A última experiência no Brasil o marcou negativamente. No Flamengo, em 2008, problemas com o goleiro Bruno conturbaram o ambiente e tiraram o time do eixo no final de um trabalho que, pelo menos, lhe valeu de grande experiência - o Rubro-Negro disputou a vaga na Libertadores até a última rodada, mas teve de se contentar com um lugar na Sul-Americana.
Agora no Botafogo, vê nas lideranças do grupo a união necessária. Ao contrário de Joel, mantém um bom relacionamento com Loco Abreu. No seu antigo desafeto Maicosuel (leia na entrevista), apostas todas as fichas em um bom segundo semestre, desde que, é claro, o clube traga reforços, que Caio aguarda ansiosamente que sejam anunciados ‘a qualquer momento’.
Em entrevista ao GLOBOESPORTE.COM, o treinador admite que foi surpreendido negativamente em sua chegada ao Botafogo, critica a montagem do elenco para 2011, evita atritos com Joel Santana e revela que poucas vezes encontrou um ambiente tão bom no futebol, como o que tem em General Severiano.
Desde que chegou ao Botafogo, você deixou claro que sua ideia inicial não era voltar ao futebol brasileiro nesse momento. De certa forma, foi um risco assumir esse trabalho que já vinha de mais de um ano com o Joel Santana, com essa responsabilidade de mudar a maneira de jogar do time, com uma cobrança grande. Imaginava que teria tantas dificuldades neste início?
Planejava terminar meu contrato com o Al-Gharafa e voltar para o Campeonato Brasileiro. Mas coisas imprevisíveis aconteceram. Era quase impossível imaginar que eu romperia o contrato com o clube antes do fim. Mas perdemos três jogos seguidos, e isso desencadeou uma série de coisas. Primeiro, tive uma ligação de um dirigente do Fluminense, mas não houve evolução. Teve também a questão do Atlético-PR, que acabou não dando certo. E com o Botafogo a coisa engrenou. Sabendo do risco, eu achei que eu não poderia deixar de aceitar, até porque eu teria tempo para observar a equipe até o Campeonato Brasileiro. Acho que o preço de chegar no meio das competições já foi pago, mas me surpreendi negativamente com algumas coisas, como a formação do grupo. É difícil você entender como uma equipe como o Botafogo não tem jogadores com características de meia para organizar o jogo. Não estou criticando, nem apontando. Mas é uma constatação. Isso foi o que mais me chamou a atenção, e é o principal problema do grupo. Isso ficou claro nos últimos jogos. Tanto que lancei um garoto de 18 anos, o Cidinho. Tem um talento espetacular, mas ainda é muito jovem. Fisicamente ainda não está pronto. Acho que o trabalho vai aparecer. Vim com muito entusiasmo para colocar em prática as coisas que aprendi nesses dois anos e meio. Tanto no Japão, quanto no Catar. A convivência com treinadores europeus, implantar ideias de treinamentos. Eu quero que, no final da temporada, vocês reconheçam o Botafogo como uma equipe com boa posse de bola, que cria muitas chances de gols e agrada o torcedor. Isso é um dos objetivos, mas é claro que temos de ter resultados. Mas tenho certeza que através dos treinamentos vamos conseguir implantar nossas ideias.
Com qual palavra você definiria esse início de trabalho no Botafogo?
União. Fazia tempo que eu não sentia isso. Aqui no Brasil, um trabalho em que me senti bem recebido foi no Palmeiras. Foi um dos mais gostosos por causa do ambiente entre a comissão técnica e funcionários. E aqui estou sentindo isso de novo. O ambiente de trabalho no Botafogo é muito agradável. Profissionais sinceros e competentes. É um ambiente saudável. Todos estão torcendo por reforços, na expectativa de a equipe encaixar. Me deixam muito à vontade. A direção não deixa entrar nada de fora. Temos tudo para fazer um bom trabalho.
Qual foi o cenário que encontrou quando chegou?
O mais importante é o desgaste de imagens de alguns jogadores. Isso pra mim foi o mais preocupante de imediato. Sem citar nomes, vários jogadores atingiram um desgaste com a torcida que você tem que saber administrar. Eu fiz isso já na chegada. No caso do Fahel, por exemplo. Nos sete jogos que comandei a equipe, o coloquei para jogar somente contra o Avaí, em Florianópolis. Eu evitei esse tipo de situação para tentar amenizar, tentar administrar esse momento. Não é fácil. Esse é o principal problema. Não vejo outros. A não ser a falta de jogadores para organizar o jogo. São esses os dois principais problemas.
Como viu a violenta recepção da torcida no aeroporto após a eliminação para o Avaí na Copa do Brasil? O que falou para os jogadores?
Não falei nada. É o tipo de coisa que é melhor não falar e tentar administrar sem tocar no assunto. É inadmissível. A direção vem tomando atitudes em relação a isso. É só lamentar o que aconteceu. Torcedor pode ir ao estádio e xingar. Mas tem de ajudar o clube. Comprando ingresso. Quem ajuda tem direito a cobrar.
O Joel Santana deixou o Botafogo por causa da pressão da torcida, que continua cobrando. Como você acha que pode ser resolvido isso? Só com resultados?
As coisas têm de mudar no Brasil. Uma das coisas que mais fizeram com que eu saísse foi aquela invasão na Gávea. (Em 2008, torcedores invadiram a sede do Flamengo durante um treinamento e jogaram uma bomba no gramado.) Aquilo foi uma das coisas que mais me decepcionaram no futebol até hoje. A forma como tudo aconteceu, o risco que corremos. Vejo que praticamente nada mudou no Brasil. Temos um exemplo claro em relação a isso, que foi o que a direção do Coritiba fez. Tomou uma posição e está provado que o que vale é que o torcedor tem de ir para o estádio para ajudar o clube. Tem de torcer. Sou a favor da família no estádio, que sempre foi o ponto alto do futebol brasileiro. E ajudar o clube. Ir na loja do clube, comprar uma camisa, comprar um ingresso. O Governo que tem que tomar uma posição. Nos últimos jogos vimos algumas coisas absurdas. O país que vai organizar uma Copa do Mundo tem que dar exemplo. E eu não estou vendo esse exemplo. Como figura pública, tenho que me manifestar. Mas não é fácil. Em relação à torcida do Botafogo, acho que as coisas vão acontecer naturalmente. O torcedor vai ver que o trabalho é sério, e na hora certa eles vão apoiar.
Você trouxe algumas coisas diferentes para os treinamentos. Não gosta de dar coletivos e rachões, por exemplo. Como você acha que os jogadores estão aceitando isso?
Muito bem. A gente ouve no dia a dia e eles estão muito felizes. Jogador tem de trabalhar. Essa coisa do coletivo é ultrapassada. Você tem que fazer trabalhos táticos coletivos, mas sempre com objetivos bem definidos. Os jogadores têm de saber o porquê do treinamento. A gente vê grandes equipes do futebol europeu que têm uma posse de bola, uma aplicação tática, por causa dos treinamentos. Não é só ir a campo que a coisa surge. Tem que repetir, treinar. Acho que a maior dificuldade do treinador no Brasil é cultural. Você tem que ter muita paciência, mostrar no vídeo, mostrar no campo. Ainda assim eles têm muitas dificuldades de aplicar no jogo. Quem quer implantar coisas diferentes, mais modernas, encontra muitas dificuldades.
Seria um sonho levar o Botafogo à Libertadores. Acredito nessa possibilidade, mas sei que é difícil"
E os rachões?
Isso não é nada radical. Foi colocado pela imprensa que eu não gosto de rachões. O que é o rachão? Qual é a ideia? É a descontração. Acho que não é uma coisa errada, mas você não precisa fazer só isso. O jogador, quando sabe que é só isso, nem se prepara para o treino, não se cuida. Então se pode fazer um treinamento recreativo durante o treinamento. Isso pode ser uma parte do treinamento. Na véspera de um jogo é muito importante fazer uma bola parada, ou um trabalho tático.
Você falou que nesses dois anos e meio fora do Brasil aprendeu bastante. Quando saiu do Flamengo, no final de 2008, recebeu algumas críticas. Qual é a diferença do Caio Junior que saiu do Flamengo em 2008 para o que chega agora ao Botafogo?
Acho que cometi um erro muito grande no Flamengo, em ter aceitado aquele momento da saída do Marcinho, do Renato Augusto, do Souza. A equipe liderava o Campeonato Brasileiro, e a reposição não foi à altura, como eu gostaria. Quem pagou o preço fui eu. Hoje, acho que os clubes aprenderam em relação à questão da janela (de transferências). Tem que ter muito cuidado nesse momento. Você desequilibra totalmente uma equipe, quando se perde três jogadores ao mesmo tempo, como foi o caso. Paguei um preço alto por isso, infelizmente. A equipe tinha tudo para ser campeã brasileira. Acho que amadureci muito. Tenho muita convicção do meu trabalho. Sei o que tenho que fazer. Não me impressiono com bons ou maus resultados. Tenho uma linha. No aspecto tático, evoluí bastante. Acompanho muito o futebol europeu e acho que a evolução está aí. Temos que admitir que eles estão mais preparados, estudam mais, e acreditam muito na parte tática. Essa é a grande diferença do treinador europeu para o brasileiro. O europeu treina e determina para os jogadores, que acreditam e fazem. No Japão, por exemplo, era impressionante. A determinação, aplicação e disciplina tática me deixavam impressionado. Se você pede uma coisa, o cara faz aquilo rigorosamente. Não muda uma vírgula. Essa é uma diferença. Você pede uma coisa para o jogador brasileiro, e ele faz um pouquinho diferente, até pelo talento. A gente tem essa vantagem no Brasil. Até fiquei chateado com uma declaração do Jorge Jesus, que é treinador do Benfica. Ele citou os italianos, portugueses, alemães, argentinos, mas coloca o treinador brasileiro como um dos últimos. Por que ele acha que é muito fácil ser treinador no Brasil? Porque aqui tem muito talento. Ele esquece que aqui tem uma pressão absurda no dia a dia, em em nenhum lugar do mundo é assim. Ser treinador no Brasil é muito mais difícil, pela pressão e pela cultura do jogador brasileiro. Na Europa, os caras são avaliados de dois em dois anos. Pelas dificuldades que passamos, o treinador brasileiro tem de ser mais valorizado no futebol mundial. Mas ele não é visto assim. O treinador brasileiro trabalha no mundo todo, menos na Europa. Trabalhou o Vanderlei (Luxemburgo), trabalhou o Felipão, agora o Leonardo. Mas existe ainda um preconceito contra o treinador brasileiro.
E na sua opinião, quais são os grandes treinadores do futebol brasileiro e do futebol mundial, neste momento?
Entre os brasileiros, a minha referência é o Paulo Autuori. Sempre foi. Ele foi meu treinador, trabalhei com ele dois anos, e agora tive a oportunidade de ser rival (no Catar). Gosto muito do Parreira, do Oswaldo Oliveira, do Levir Culpi, do Ney Franco. São estilos com os quais me identifico. Mas hoje os melhores do cenário mundial são o (Pep) Guardiola (Barcelona) e o (José) Mourinho (Real Madrid). Mas tem muita gente boa por aí. Tanta gente, que seria até injusto citar um ou outro.
Com esse tempo para treinar e armar a equipe, acha que o Botafogo pode dar uma arrancada neste início de Campeonato Brasileiro e acumular pontos preciosos?
O problema é que nosso início é muito difícil. Além dos problemas que temos para organizar a equipe, temos o problema dos adversários. Vamos jogar contra o Palmeiras e depois contra o Santos. Qualquer resultado será normal nesses dois jogos. Mas se conseguirmos bons resultados, isso pode trazer um algo a mais para o time.
Além da necessidade de meias, que você sempre cita, quais são as outras posições carentes do time, que precisam de reforços?
De volantes estamos bem servidos. As laterais, com a chegada do Cortês, e Lucas e o Alessandro na direita, estão bem. Ainda estou analisando a situação do Gabriel na esquerda. O planejamento é mais um zagueiro, meias, e a chegada de mais um ou dois atacantes. E os nomes devem surgir a qualquer momento.
Fora os interesses públicos em Gilberto e Andrezinho, surgiu o nome do meia Caio, do Frankfurt (ALE), com quem você trabalhou no Palmeiras. Você indicou esse jogador? Existe a negociação?
Temos nomes bem específicos (Andrezinho e Gilberto). Não adianta falar em outros nomes. Estamos na expectativa de definir isso. Nós temos os nomes e vamos atrás deles. No momento em que você fica com cinco, seis nomes, você se perde. A rodada da Libertadores foi boa (risos). Espero por novidades nos próximos dias.
PS: O Botafogo negocia com os meias Andrezinho (Internacional) e Gilberto (Cruzeiro). Com a eliminação de ambos na Libertadores, aumentam as chances de os negócios serem concretizados rapidamente.
Em relação a contratações, você acha que o Botafogo está em condições de competir com os principais clubes do Brasil? O clube tem condições de atender suas indicações?
Acho que para falar do Botafogo, tem que lembrar como era o clube há alguns anos em questão de planejamento e organização. O Botafogo hoje tem um estádio, uma estrutura. É um clube que paga em dia. Tem planejamento na parte administrativa. Isso já é um sinal de que as coisas mudaram bastante. As categorias de base também melhoraram. Encontrei no Botafogo pessoas sérias. Eles não vão contratar por contratar. Estou satisfeito. Todos jogadores que vierem serão planejados. Aí entra a minha parte. A minha indicação tem de bater com a parte financeira e com o planejamento do clube. O Botafogo está no caminho certo e vai ser um dos clubes mais organizados do Brasil em pouco tempo. Isso vai ser reconhecido quando a estrutura toda vier para o Engenhão, em dois ou três anos.
Com os reforços que devem chegar, qual é a sua perspectiva em relação ao Campeonato Brasileiro? Até onde o Botafogo pode chegar?
No Campeonato Brasileiro, não tem como prever alguma coisa. Se você não estiver no mínimo igual aos outros, você não chega. Com esses jogadores (reforços), talvez a gente fique igual à maioria. Acho que algumas equipes estão na frente hoje. Internacional, Cruzeiro, Santos e Fluminense são equipes que já estão com um elenco formado há mais tempo e levam alguma vantagem. Mas o maior segredo do Campeonato Brasileiro é saber administrar os momentos de crise. Nos três clubes em que trabalhei na Série A (Paraná, Palmeiras e Flamengo), nós fomos de ponta a ponta e conseguimos administrar alguns momentos de crise. É impossível ganhar sempre. Todas as equipes vão perder dois ou três jogos seguidos em algum momento. Mas isso não é só o treinador. São os jogadores, os diretores, a comissão técnica. Tem de saber administrar para sair logo disso.
Você citou os laterais com quem pretende trabalhar no Campeonato Brasileiro, mas não falou no nome do Márcio Azevedo. Ele é um jogador que chegou no início do ano para ser titular. Quais são os planos para ele?
O Azevedo tem um potencial muito grande. É um dos jogadores que tiveram um certo desgaste (com a torcida) e temos de ter muito cuidado. Por isso o tirei dos jogos nessa reta final. Ele tem muita dificuldade de jogar como lateral, é muito mais um ala. Então, é um atleta que, para jogar como lateral, tem que ser mais trabalhado defensivamente. Estou observando o Gabriel, que foi muito bem no Campeonato Carioca (pelo Duque de Caxias). É uma situação indefinida.
Ele pode ser aproveitado em outra função, como meia, por exemplo?
É uma ideia. Ele é um jogador muito mais ofensivo do que defensivo. Temos de saber usá-lo, mas também treiná-lo para nessa parte defensiva, senão nunca vai ser completo.
Depois que o Joel Santana saiu, ele fez alguns comentários sobre seu trabalho. Você deve ter visto. Como lidou com isso?
Eu sinceramente não tenho nada a dizer sobre isso. Respeito o Joel e vou respeitar sempre. Não acredito que ele tenha falado alguma coisa sobre o meu trabalho. Não tive problema nenhum na transição no Flamengo (em 2008). Foi ótima, ele me ajudou muito. Agora, não tive a oportunidade de conversar com ele.
Deixaria o clube por causa das cobranças dos torcedores?
É difícil falar sem vivenciar. Quero cumprir meu contrato até dezembro. Quero terminar o ano conquistando alguma coisa e tendo reconhecido o meu trabalho internamente. No Brasil, quando não se ganha título, pouca gente reconhece o trabalho.
Como vê o papel do Loco Abreu dentro do Botafogo?
Gosto de trabalhar com jogadores inteligentes. Gosto de ouvir argumentos. Mas para ele vir, tem que ter argumentos melhores do que os meus. Já trabalhei com jogadores de alto nível. Com o Juninho Pernambucano, por exemplo, tive um excelente relacionamento de dois anos, de respeito. Quando um jogador atinge esse nível de idolatria, você tem de respeitar, desde que ele te respeite. Até agora, meu relacionamento com ele (Loco) tem sido excelente. Ele está tendo uma participação muito importante no dia a dia, mostrando que está com vontade de ajudar e entendendo nosso trabalho. Infelizmente, ele teve essa suspensão e depois vai para a seleção (uruguaia). Praticamente vou perder o Abreu por dois meses. Comigo, ele já fez cinco ou seis gols. E direcionamos sempre para que a equipe jogasse para ele, mas sem ser aquela bola alçada na área, que era uma coisa meio que automática no time.
Quando chegou no Paraná, em 2006, o time também estava muito desacreditado e você conseguiu levar a equipe à Libertadores. Quais são as semelhanças com o atual time do Botafogo?
Uma das semelhanças, com certeza, é a intertemporada. Foi o grande segredo. Era uma equipe que tinha velocidade, marcava bem, tinha grandes jogadores. Outra semelhança é ter o Maicosuel de novo ao meu lado. Estou entusiasmado com os treinamentos dele. Está muito mais confiante, está partindo para cima. Ele não tem mais nenhum problema. O problema agora é mental. O cara ir para o jogo e ver que está jogando, indo natural. E a perna dele vai voltar a ter o tamanho normal, porque ela ainda está um pouquinho maior do que a outra. Mas isso é só com o tempo. Estou muito confiante de que nesses dois jogos amistosos ele possa adquirir essa confiança e, já contra o Palmeiras (na estreia no Campeonato Brasileiro, no dia 22 de maio), possa ser uma peça importante. Não sei se logo de início. Ganhamos, com esses dois amistosos, a possibilidade de já ter o Maicosuel mais inteiro na primeira rodada.
E como foi trabalhar com o Maicosuel, com 20 anos, no Paraná? Ele era um pouco rebelde e teve um problema disciplinar contigo. Como foi lidar com isso e como foi esse reencontro? Vocês chegaram a falar sobre esse problema antigo?
Ele virou ídolo lá. Foi campeão paranaense, já com destaque, e fez aquela campanha no Campeonato Brasileiro (em 2006). Ele era muito novinho. Quase todos os dias trocava a cor dos olhos, cabelo diferente. Atrasava muito para os treinos. Lembro que o chamei várias vezes na minha sala e pedi para ele melhorar, ser mais profissional. Ele ouvia, mas não conseguia cumprir. Chegou a um ponto em que isso estava afetando meu trabalho. E culminou com o afastamento. Ele ficou magoado comigo e eu fiquei chateado de ter de tomar essa decisão. Mas, na época, eu comentei que era para o bem dele. Uma vez o encontrei em um corredor de estádio e ele me agradeceu dizendo que eu estava certo. Agora, chego aqui e o encontro. Fiz questão de retomar o assunto, logo na primeira vez que o encontrei. Vi que é uma situação bem resolvida na cabeça dele. Ele mudou completamente. Aquilo foi um dos pontos de partida para ele mudar e amadurecer. Ele sofreu muito. Hoje é outro jogador, mais maduro. Parece incrível. Parece que estou tendo uma nova chance de reconstruir aquela relação que foi cortada naquele momento. Eu tenho uma relação meio especial com ele. Nós crescemos juntos no Paraná. A minha ascensão é muito parecida com a dele. Ele precisa da minha ajuda nessa recuperação e terá. Com calma, paciência e muito apoio. Estou muito feliz de ter novamente essa oportunidade de fortalecer a nossa amizade.
Espera repetir com ele a trajetória rumo à Libertadores?
Seria um sonho levar o Botafogo à Libertadores. Acredito nessa possibilidade, mas sei que é difícil. Chegar entre os quatro primeiros não é fácil. Temos que começar bem a competição para terminar bem.
Acha que o Maicosuel está pronto para ser o cara do Botafogo neste Brasileiro?
Acho que sim, com a ajuda dos reforços. Ele precisa dessa ajuda. Ele tem de ser um dos jogadores acima da média. Com a ajuda dos outros, ele pode voltar a fazer o que já fez. Ele não conseguiu essa idolatria à toa. O problema agora é que ele nunca mais será o mesmo no sentido físico. Ele tem de trabalhar muito na musculação. E isso não é fácil. Jogador já tem um desgaste natural de jogo, da pressão. Imagina você ter de passar todos os dias na musculação para repetir uma rotina de exercícios. Isso requer uma mentalidade vencedora. Não é fácil.
Acredita que o trabalho de psicólogos no futebol ajuda? É um trabalho conjunto com a comissão técnica?
Sempre trabalhei com psicólogos. Desde do Cianorte, há sete anos. O que eu mais gosto do trabalho dos psicólogos é no sentido de identificar a personalidade de cada jogador. Se trabalho com 30 jogadores, são 30 pessoas com personalidades diferentes. Eu, como chefe, tenho que ter a leitura da personalidade individual e coletiva. Tendo isso em mãos, você sabe como lidar individualmente e coletivamente.
Nesse primeiro momento, você já tem um esboço de como é o perfil psicológico deste Botafogo?
Tenho. Individualmente, já tenho. Temos algumas lideranças muito boas, positivas. Não muitas, mas algumas, que podem me ajudar bastante. Posso citar dois. São os casos do Jefferson e do Antônio Carlos. São dois jogadores com uma liderança bastante positiva.
Uma vez você disse que gosta muito do Lucas Zen porque ele é um jogador que fala duas línguas. Dá valor a jogadores mais instruídos?
Você tem de se adaptar aos jogadores que tem. Tem que tentar ajudar quem tem menos capacidade intelectual. Mas quando se tem um jogador que tem uma capacidade maior, fica mais fácil. Contra o Avaí, eu coloquei o Lucas Zen para exercer uma função tática que só um jogador inteligente pode fazer. Ele exerceu perfeitamente. Talvez, ele não seja titular imediatamente, mas ele é uma opção o tempo todo. Não duvido que, durante o Campeonato Brasileiro, se firme, por esse estilo. É um jogador de muito futuro, e o Botafogo vai ter muito retorno.
Acha que o jogador deve sempre procurar evoluir fora de campo?
Não tenha dúvida. É uma pena que o jogador só enxergue isso quando sente na pele. Eu mesmo saí do Brasil com 22 anos e fui para Portugal, onde joguei durante oito anos. Foi lá que comecei a enxergar essas coisas. Eu, como treinador, tenho que estar sempre orientando os mais jovens. Falem pelo menos Inglês. Vai ser mais fácil a adaptação fora do Brasil em todos os aspectos. É o mínimo que o jogador pode fazer.
No Flamengo, o Bruno foi o único que não cumpriu a determinação. Ele descumpriu e aquilo refletiu no ambiente. Em alguns momentos, me senti muito sozinho. Tinha muita pressão e eu me sentia isolado. Isso atrapalhou"
Caio Jr.
Em sua primeira passagem pelo Rio, comandou o Flamengo, que é um clube que tem um perfil completamente diferente do Botafogo. Qual é o contraste que você pode apontar entre os dois clubes, em termos de privacidade e tranquilidade para trabalhar? Sua passagem pelo Flamengo chegou a marcá-lo negativamente pelo fato de como tudo aconteceu?
Aprendi que você tem de ter uma equipe de trabalho. Hoje eu não abro mão disso. Essa é uma grande diferença entre minha passagem pelo Flamengo e agora. Consegui trazer uma equipe boa, com quatro profissionais (dois auxiliares, um preparador físico e um psicólogo). Tem que ter sua equipe para te dar um respaldo. Eu fui muito sozinho para o Flamengo. Só com o Júlio, que era meu auxiliar. Em alguns momentos me senti muito sozinho. Tinha muita pressão e eu me sentia isolado. Isso atrapalhou.
E as questões disciplinares? Teve aquela questão de os jogadores não terem concordado com a determinação de almoçar no clube.
Na verdade, foi só o Bruno (goleiro). Disciplina é a base de tudo. Na reta final (do Brasileiro de 2008) tivemos esse problema. O Bruno foi o único que não cumpriu a determinação, que era de o grupo treinar integralmente, com as refeições no hotel. Ele descumpriu e aquilo refletiu no ambiente. Tem que ter estrutura. Nesse aspecto, o Botafogo dá todas as condições em General Severiano. Não é nada excepcional, é simples. Mas o fato de o jogador chegar pela manhã no clube, treinar, almoçar, descansar, treinar à tarde, fazer a recuperação, fazer um lance e ir embora faz uma diferença brutal. Coisa que não consegui no Flamengo. Tentei implantar do jeito que dava, pela estrutura que tinha. Não sei como está hoje, mas aprendi que isso é decisivo para o trabalho.
Como vê o trabalho que está sendo feito nas categorias de base do Botafogo?
Eu tenho marcada com o presidente (Maurício Assumpção) uma ida a Marechal (Hermes) para fazer uma palestra e também para aproximar o profissional das categorias de base. Pretendo fazer muitos jogos-treino contra a base durante o Campeonato Brasileiro. As informações que tenho é que o clube evoluiu muito na base. Tinha muitas dificuldades financeiras, mas hoje está muito mais organizado. Não foi à toa que conquistou a Taça Guanabara de Juniores. Uma coisa leva à outra. Não pode se querer resultados, sem dar estrutura. Existe projeto para melhorar ainda mais. Estou empolgado. Conversei com o treinador dos juniores (Eduardo Húngaro) e vi nele um cara de nível. É inadmissível, por exemplo, um jogador de base chegar ao profissional sem saber fazer pelo menos duas funções dentro de campo. Nas laterais, por exemplo. No Brasil, existe uma tendência há algum tempo de os laterais se tornarem alas. Quando se quer jogar com uma linha de quatro, com dois zagueiros, os caras não sabem marcar. Só sabem jogar ofensivamente. O Eduardo já me falou que eles treinam em mais de um esquema.
A bola parada tem sido o problema do Botafogo, mas o Lucas está muito bem nas cobranças de falta. Além dele, quem mais pode ser cobrador no Botafogo?
Não está fácil. Neste momento, o Lucas é o principal. É o número um e vai ser nesses dois amistosos. Dos jogadores que podem vir, pelo menos um deles tem de ter essa qualidade. Nossa bola parada foi horrorosa nesses primeiros jogos que tive aqui. Era contra-ataque toda hora, estava muito mal executada. Primeiro, pela falta de treinamento, e, segundo, pela incapacidade de quem estava batendo. Com exceção do Lucas, acho que os outros não têm isso. Não é fácil ser cobrador de faltas. E eu estou muito exigente depois de trabalhar por dois anos com o Juninho Pernambucano (risos). Sessenta por cento dos gols do Al-Gharafa eram de bola parada. Não necessariamente direto para o gol. Mas essa bola parada que o Juninho bate, incluindo escanteios, é uma coisa sensacional. Nunca vi nada igual.
Vai ter que jogar contra o Juninho agora.
Vou mandar não cometerem faltas (risos).
E você acha que o Juninho, com 36 anos, ainda tem gás para jogar no Brasil?
Tem. Ele é muito inteligente. O Al-Gharafa decidiu agora a Copa do Príncipe, e ele fez o gol da vitória. A vantagem é que ele se prepara muito, se concentra muito naquilo que faz. É um exemplo de profissionalismo impressionante. Se quiser, joga mais dois anos tranquilamente. O segredo é saber administrar o pré-jogo e o pós-jogo. Ele sabe administrar, mas tem de ser em conjunto com a comissão técnica. Nós conseguimos no Catar trabalhar bem isso com ele. Ele conseguia chegar sempre inteiro para o jogo. Nessa idade, se o jogador chegar cansado no jogo, não vai render.
Ele (Maicosuel) era muito novinho. Quase todos os dias trocava a cor dos olhos, cabelo diferente. Atrasava muito nos treinos. Lembro que o chamei várias vezes na minha sala e pedi para ele melhorar, ser mais profissional. Ele ouvia, mas não conseguia cumprir"
Como é sua relação com o Fahel?Todo mundo que passa pelo clube gosta muito dele, mas ele é desgastado com a torcida.
O desgaste dele não é só dele. É de alguns jogadores que estão há muito no clube e estiveram presentes em algumas derrotas que marcaram. Na minha opinião, o Fahel joga em qualquer clube do Brasil. Não o conhecia e fiquei impressionado com a personalidade, caráter e comportamento dele. Desde que cheguei, é de enaltecer e valorizar. Se todos jogadores tivessem metade do comportamento profissional do Fahel, seria muito fácil trabalhar no futebol. Tecnicamente, acho que ele pode jogar de volante ou como quarto zagueiro. Tem tudo para ser um grande jogador nesta posição. Acho que hoje ele é muito mais um quarto zagueiro do que um volante. Não sei se isso vai acontecer mais para frente, mas eu vejo assim.
Você já esteve nesse lado da redação (Caio Jr. foi comentarista no Paraná antes de tornasse treinador), mas acabou passando para o outro lado. Fala um pouco dessa experiência como comentarista.
Acho que ainda vou voltar um dia para esse lado, porque eu gosto. Por prazer. Se um dia eu voltar, vai ser por isso. Realmente gosto. O que me levou a ser treinador foi o fato de gostar de analisar o jogo, observar. Tive um período de dois anos em rádio. Fiz mais de 300 jogos. Acho que isso me ajudou muito. Foi uma passagem ótima para eu ver que tinha a possibilidade de ser treinador. Mas eu tinha desistido. Mas o que aconteceu são coisas da vida. O professor Miranda, presidente do Paraná, resolveu, do nada, me dar a oportunidade de voltar ao clube. Foi ali que alavanquei minha carreira. Sou muito grato a ele. Se eu não tivesse essa oportunidade, certamente não teria voltado ao futebol como treinador.
Essa experiência como comentarista o ajuda na hora de lidar com a imprensa?
Bastante. É fundamental. Eu tenho uma paciência grande em relação a isso por saber como funciona, a necessidade da pergunta mais polêmica. Só quem trabalhou em rádio sabe como é difícil o dia a dia. Mas não só as experiências em rádio e televisão foram importantes. Também fui supervisor do Coritiba em 2001, durante um ano. Isso me ajudou também a entender a dificuldade de ser dirigente no Brasil, lidar nessa área. Foi um pouquinho de cada coisa, que deu uma base boa.
Passa isso para os jogadores? A forma de falar com a imprensa?
Não chego a falar diretamente. A função do assessor de imprensa é essa. Mas procuro me relacionar bem com as assessorias de imprensa dos clubes. E sempre dou alguma dica, alguma sugestão. É importante. O jogador não tem essa visão que a gente já teve.
Para terminar, você gosta de ler? Qual livro você está lendo no momento?
Leio sobre futebol. Estou lendo um livro sobre o Guardiola (técnico do Barcelona) agora. É em espanhol. Sei pouquinho de espanhol, mas estou lendo. Já li várias coisas sobre o Mourinho. No Brasil, é muito difícil você ter literatura de futebol. O que foi lançado eu já li. O Parreira lançou um livro, o Felipão também. Esse é um dos meus sonhos. O meu problema é que não lembro de escrever. Sonho em escrever dois livros. Um com objetivo técnico, sobre treinamentos, parte tática. O outro sobre histórias do futebol. Espero um dia contribuir para a literatura brasileira."

«
Next
Postagem mais recente
»
Previous
Postagem mais antiga

Nenhum comentário:

Leave a Reply