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» »Unlabelled » Clarice: Decifra-me que te devoro

Hermética, tecnicamente impossível, palpável, ídolo, solitária, genial. A loba da estepe de Herman Hesse pouco falava de seus problemas particulares. De depressão a pilhas de calmantes sem recomendação médica. Essa era Clarice, segundo seu biografo, o inglês Benjamin Mosses.

Poucos podem imaginar o quanto sofria a mulher que paulatinamente conquistou os corações de muitos brasileiros. Muito de seus contos são sua vida. De pai e mãe imigrantes, chegou a Recife ainda criança, menos de 2 anos de idade. Das lembranças, sobrou muito pouco, as que restam são tristes: a mãe prostrada com Sífilis, resultado dos abusos dos soldados na Guerra Civil Russa, motivo da vinda da família para Brasil.

Sobre Chechelnyk, condado de poucos habitantes no extremo da Ucrânia, parte da Rússia na época, só o que sabe era o que a memória lhe escondia: a perseguição contra a família e guerra que deixou sequelas nas irmãs e na mãe.
Sendo a mais nova das irmãs, saiu da Rússia carregada, local onde propriamente “nunca pisei”. De infância pobre viu o pai sustentar a família exercendo a profissão de mascate, um camelô da época de 30.
Ao mesmo tempo, a menina Clarice roubava rosas das mansões de Recife: “Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que o meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.”

Ao chegar no Brasil com a família, o estado de Mania Lispector, que para sair da Rússia teve de usar suas últimas joias como passaporte em um velho navio de carga, cercado por baratas e ratos, piorava. A menina Clarice tentava animar a mãe com contos e peças, começava ai sua inimaginada carreira literária.
Os textos não serviam apenas de passatempos para Mania, a precoce escritora envia seus escritos para o Diário de Pernambuco, mas os editores não os publicavam “porque não tinha ‘era uma vez’, estavam recheados de sensações”.
Aos oito anos perde a mãe. Um choque que irá se refletir por toda sua obra. A irmã mais nova, incapacitada de salvar a mãe, e que se culpou por toda a existência pela doença que tirou a vida de Mania Lispector. 

Na época, acreditava-se que uma nova gestação curaria a Sífilis. Mania e Pinkhas também acreditavam nessa teoria, que na verdade nunca deixou de sérum conto popular.
Seis anos mais tarde se transfere com a família para a cidade onde viria a morrer anos mais tarde, o Rio de Janeiro.

O Rio seria, portanto, a ebulição de sua carreira. Mas antes, Clarice iria estudar advocacia. De declarações públicas, pouco se tem notícias. Entretanto, Lispector adquiria um sentimento utópico em relação as pessoas. A situação das penitenciarias já lhe afligia, e mesmo sem orientação, escolheu seguir carreira como advogada, o que acabou não se concretizando, ainda que Clarice fosse uma das poucas mulheres que cruzaram faculdade na sua época.

Em solo canarinho, o pai Pinkhas rebatizou o nome para Pedro. Os negócios não avançavam com rapidez, mesmo agora, onde ele se tornara, com muito esforço, representante comercial. O pai de Chaya, posteriormente, Clarice, morreu aos 55 anos, em 26 de Agosto em decorrência de uma cirurgia, simples, na vesícula biliar. Até morrerem, suas irmãs Tânia e Elisa, colocam a prova a morte do pai, a perseguição aos judeus no momento do crescimento do estado novo no governo de Vargas, havia aumentado.

Em 1943 lança seu primeiro romance Perto do Coração Selvagem explodiu em sucesso e alçou Clarice ao patamar dos escritores da época.
O furacão Clarice seria interrompido no Rio de Janeiro por quase duas décadas, quando se casa em janeiro de 1943 com o diplomata Maury Gurgel Valente, pai dos dois únicos filhos de Clarice. Agora naturalizada brasileira, Clarice deixaria pela primeira vez dede que chegou, o seu país.

Com Maur, Clarice dá a volta ao mundo, passando por períodos na Suíça, Egito, Itália, EUA, até retornar ao Brasil, separada, em 1959. Seu primeiro filho, Pedro, nasceu e desenvolveu esquizofrenia. Clarice agora não só tinha a culpa pela morte da mãe, mas também pelo nascimento do filho, que na época sofria de uma doença pouco conhecida.

No auge do aplauso social brasileiro, Clarice escreveu diversos contos e livros, entre eles: Aprendizagem ou o livro dos prazeres, A paixão segundo G.H., A hora da estrela, Perto do coração selvagem, Água Viva e tantos outros. Todas as personagens são a própria Clarice. Lóri, Joana, Macabéia.
Inútil separar Clarice de seus contos e seus livros. Todos são a mesma pessoa.
Inútil falar da esfinge Clarice Lispector: decifra-me e te devoro.

Os livros que recomendamos:
Aprendizagem ou o livro dos prazeres: O livro que começa com uma vírgula e termina com dois pontos. O perigo e o desejo de amar e se entregar sem temer ou sem desconfiar é o que aflige Lóri e Ulisses. O emaranhando de situações: sair do conforto ou continuar se martirizando pelo medo.
A hora da estrela: Talvez o único livro onde Clarice tocou o problema social do Brasil. Macabéia vive apenas de hot dog e refrigerante. O exemplar e desafiador modo de contar sobre o sofrimento do nordestino que embarca para regiões metropolitanas em busca de uma vida melhor.

A paixão segundo G.H.: Não se trata apenas de uma mulher que come uma barata, é amplo como o ser. Amplo como a liberdade que Clarice almeja em sua obra. Amplo para aqueles que não entendem.

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