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» » » » » Exclusivo: Abre Aspas com Renê Simões "Somos repetidores e não pensadores"

Nascido no Rio de Janeiro em 17 de dezembro de 1952, Renê Simões até tentou ser jogador de futebol, atuando nas categorias de base do São Cristóvão, Flamengo e Bonsucesso, mas logo desistiu de ser atleta, decidindo estudar Educação Física e apostar na carreira de treinador. Renê revolucionou o futebol jamaicano, quando foi treinador da seleção do país da América Central. Assumiu o time em 1994, com a missão de classifica-los para a Copa do Mundo de 1998, na França. Logo que chegou, Simões organizou taticamente o time, convenceu os dirigentes que era necessário investimento, e resgatou talentos jamaicanos perdidos. Em 2004, foi convidado para disputar as Olimpíadas com a Seleção Brasileira de Futebol Feminino. A medalha de ouro bateu na trave, mas foi certeiro o  progresso do futebol feminino, sempre tão esquecido no país. Em 29 de dezembro de 2016, Renê Simões foi anunciado como técnico do Macaé-RJ e acabou saindo brevemente. A Portuguesa revela gratidão e a esperança de que os tempos vitoriosos voltem.  Sobre o trabalho nas categorias de base do São Paulo em 2012, fica a preocupação sobre o futuro dos garotos no futebol brasileiro em um tempo breve. Todas as suas palavras que descrevem a sua honrosa história no futebol brasileiro e mundial a seguir e com exclusividade em "Abre Aspas":

Vagner Freitas: Você iniciou a carreira como jogador nas categorias de base do São Cristóvão, Flamengo e Bonsucesso, mas logo optou por seguir a faculdade e se tornar professor de Educação Física. O que lhe levou a ter essa mudança de rumo?

Renê Simões: Eu sempre fui muito rebelde. Queria saber de tudo que estava fazendo. Até hoje em alguns lugares querem nos ensinar a fazer e não nos orientar o que e como fazer. Somos repetidores e não pensadores. Além disso, escutei por acaso, quando estava no banheiro, e o preparador físico, que não sabia que havia alguém no banheiro, falou para seu auxiliar: jogador de futebol é que nem laranja, espremo, tiro o suco e jogo o bagaço fora. Isso já no primeiro de profissional. Não consegui mais trabalhar com ele e decidi estudar e ser o técnico que não tive até aquele momento.

V: No ano de 1.994 você assumiu a Seleção da Jamaica com o objetivo de se classificar a Copa do Mundo de 1.998. A realidade encontrada levou a criação do projeto "Adote um jogador", em parceria com empresas que pudessem dar ao atleta a possibilidade de trabalhar apenas com o futebol. Como foram esses anos vivendo a diferença social entre a nossa realidade e aquela jamaicana?

R: Minha ida para a Jamaica tem muito dos solados de Deus, acredito mesmo. Eu não tinha a mínima vontade de ir. Estive lá em 1989 com a seleção sub 20 brasileira e sabia que o futebol era abaixo de zero. 
O esporte preferido era o cricket. Eles torcem como no tênis, só reagem depois da jogada acontecida, não podem interferir na jogada. Diferentemente do futebol que o torcedor participa diretamente. 
Tive que trabalhá- los nisso também. Os jogadores eram carregadores de malas em hotéis, barman, taxistas e etc. precisava tê- los o tempo todo comigo e o governo se recusou a pagar os salários. Tive a ideia de fazer uma adoção de jogadores pelas empresas e deu certíssimo. O barulho foi grande e o governo veio correndo atrás e passou a pagar as viagens internacionais  e salários de comissões técnicas.

V: Você foi um dos treinadores pioneiros no trabalho com o futebol feminino na seleção brasileira e assim ficou marcado pela medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2004. Conte um pouco essa experiência que inclusive resultou no livro: "O dia em que as mulheres viraram a cabeça dos homens".

R: Ali havia a história de quem nasceu primeiro, o ovo e a galinha e não se chegava a nenhuma conclusão. 
Elas odiavam a CBF e COB e os dois órgãos odiavam elas também. 
Conversamos e falei que só podia mudá- las para serem aceitas e boas, tinha controle sobre CBF e COB. Elas toparam e o comportamento fez os dois órgãos passarem a admirá- las. 
Todo ser humano precisa de atenção e reconhecimento. Elas não tinham nem uma e nem a outra. Dei as duas e elas cresceram como pessoas. Fomos didaticamente ajudando- as a pensar em como fazer as coisas dentro do campo e aprimorar a técnica dinâmica. A técnica estática era boa. Daí em diante tudo ficou fácil. Ainda serão campeãs olímpicas.

V: Você treinou a Portuguesa ainda nos tempos áureos da equipe, que atualmente se encontra sem divisão no campeonato brasileiro. Na sua opinião o que levou a essa queda drástica do clube?

R: Todo clube de colônia sempre foi complicado. A Portuguesa enquanto teve o Oswaldo Teixeira Duarte, dito como ditador, foi organizado e protagonista. 
Depois os grupos proliferaram e destruíram o clube. Mas ainda acredito que alguém com bom senso administrativo corrija o rumo. Sou grato pela chance em 86, ali nasci para o futebol.

V: Em 2012, você foi Diretor Técnico das Categorias de Base do São Paulo. O clube sempre foi visto como modelo na formação de atletas. Como vê, incluindo o São Paulo, o trabalho realizado nas categorias de base do país atualmente, com atletas cada vez mais cedo saindo ao futebol do exterior?

R: A ideia é que eu fosse diretor técnico do clube.  Decidi dedicar três anos às categorias de base e depois integrar todos os setores do departamento de futebol. Criei o setor de pedagogia e desenvolvimento de alta performance. 
Elaboramos um projeto que qualifico como o melhor que já participei. 
Mas as pessoas não acreditam como Abraham Lincoln: "É surpreendente o quanto você pode conquistar, se não se importar com quem levará a fama " 
Acho que as categorias de bases realizam um bom trabalho, mas em um futuro não muito longo a seleção vai sofrer muito, pois em posições chaves estamos importando jogadores de valores questionáveis.

V: Após a derrota da Seleção Brasileira diante da Alemanha, muito se falou do treinador brasileiro e surgiram cada vez mais nomes de técnicos ligados ao estudo tático. Como vê essa nova geração de treinadores?

R: Interessante assistir programas em que comentaristas e jornalistas estão acima dos sessenta e cinco anos e estes mesmos pedirem renovação no futebol com a geração de sessenta anos de treinadores. Mais interessantes são eles pedindo curso e reciclagem, quando nunca fizeram um sequer. Mas eu sou a favor da formação, da reciclagem constante e do estudo científico no futebol. Porém, não neguemos a experiências que é um dos pontos mais importantes nas tomadas de decisões em qualquer situação. Tenhamos calma e trabalhemos.

V: O que lhe levou a voltar ao trabalho no Macaé e como foi a sua saída do clube?

R: Há algum tempo que estava programando alavancar minha rede de restaurantes no futebol. Essa era a chance, eles não tinham dinheiro e pude colocar as logos na camisa. Mas o relacionamento foi muito difícil e a saída era questão de dias. Foi o que aconteceu.

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